Spirit Of The Beehive
Ao longo da última década, os SPIRIT OF THE BEEHIVE têm vindo a apurar uma estética absolutamente singular. Fragmentaram samples, mastigaram-nos, cuspiram-nos de volta, como se alimentassem um passarinho. Ao longo de quatro álbuns e vários EPs, Zack Schwartz, Corey Wichlin e Rivka Ravede consolidaram-se como alguns dos mais excêntricos e brilhantes desconstrucionistas do rock. Hypnic Jerks (2018) foi um estudo de sampledelia noise punk, e marcou o ponto de viragem da banda. Frank Ocean tornou-se fã, passando “fell asleep with a vision” no Blonded Radio. Já ENTERTAINMENT, DEATH (2021) trouxe um dream pop áspero, algures entre o realismo K-Mart e a sensação de andar a saltar de canal numa velha televisão. A 23 de agosto de 2024, os SPIRIT OF THE BEEHIVE lançam YOU’LL HAVE TO LOSE SOMETHING pela editora Saddle Creek.
O último lançamento da banda, i’m so lucky (2023), explorou a separação entre Schwartz e Ravede, estabelecendo o território emocional para o quinto álbum, YOU’LL HAVE TO LOSE SOMETHING. Esta nova obra é a versão mais cristalizada da estética do grupo — uma meditação contínua sobre o fim das relações e a instabilidade que daí resulta. É uma coleção meticulosa, bela e silenciosamente devastadora de canções. Muitas vezes soa como ouvir um walkman no meio de um furacão, como os vídeos do YouTube que se vêem na cama durante 18 horas seguidas depois de partir o pulso num acidente de skate.
O objetivo ao criar YOU’LL HAVE TO LOSE SOMETHING foi suavizar algumas arestas. “Menos curvas bruscas”, diz Wichlin. “Queríamos fazer algo intencionalmente menos antagonista”, brinca. Na prática, isto significa menos mudanças drásticas de arranjo e um som mais depurado. Um exemplo é “I’VE BEEN EVIL”, uma das canções mais recentes do álbum. É direta: mantém o mesmo tempo, não divaga, sustenta-se com guitarras turvas e vozes sussurradas. A canção é cansada, é um sussurro. O verso “I’ve been evil” soa como um encolher de ombros — um “e então?”, quase risonho.
Menos direta é a sublime “LET THE VIRGIN DRIVE”, uma faixa pop genuinamente assustadora, construída sobre samples distorcidos de city pop japonês e um excerto perturbado de alguém a gritar num noticiário. A canção começou a ser escrita na altura da digressão de ENTERTAINMENT, DEATH e demorou anos a ganhar forma. É como olhar diretamente para o sol, como acordar dentro de um saco mortuário. “Fala de amor não correspondido e de inventar uma situação ou uma vida inteira na cabeça”, explica Schwartz sobre o seu tema. “A outra pessoa finalmente ‘vê-te’ e os teus ‘problemas ficam resolvidos’, mas na verdade não ficam.” A faixa soluça e estremece — ouve-se o hiss da fita, a instabilidade, a sensação de que tudo pode ser sugado pelo horizonte de eventos de um buraco negro. “Heaven is a lie/cause you are earthly/and you’re alive”, canta Schwartz logo na abertura.
YOU’LL HAVE TO LOSE SOMETHING é um disco de provocações. Quer convencer-nos de que é apenas rock ‘n’ roll, pura fruição. Mas por baixo desse véu esconde-se uma coleção de canções tão complexas como sempre. “FOUND A BODY”, liderada por Ravede, é uma nuvem downtempo de sintetizadores variados. “Found a body”, canta, “No one can touch me.” Já “SUN SWEPT THE EVENING RED” começa de forma estranhamente alegre, antes de se desfazer numa avalanche de guitarras lamacentas, vozes com auto-tune e uma torrente de cordas. Como em todos os discos dos SPIRIT, trata-se de música feita por três vozes distintas, escritas de forma independente e depois reunidas. Apesar de escrito em pontos diferentes do mundo — Ravede em Portugal, Schwartz e Wichlin em Filadélfia —, o trio convergiu nos mesmos temas: a brutalidade de encarar a realidade, o que significa mentir para proteger o coração. Schwartz afirma escrever quase em fluxo de consciência. Durante o processo criativo, a banda ouve pouquíssima música exterior. O resultado é um álbum que constrói o seu próprio mundo: onde o caos é cuidadosamente orquestrado, onde relaxar é uma ilusão, um espelho enganador.